Ela não gostava de nenhum tipo de aniversário. De idade, namoro, casamento... o que quer que fosse. Ela não comemorava, não comprava presentes, e se alguém quisesse dar presentes a ela, era uma coisa. Ou ela dava as costas e saía andando ou pegava e deixava de lado.
Mesmo assim ele gostava dela. Todo ano ele respeitava isso nela e não dava parabéns, não comprava flores, nada. Ele ficava na dele e ela ficava muito grata por isso. Ela podia confiar nele, diferentemente das outras pessoas que tentavam invadir a casa dela com bolo e cantando parabéns porta adentro, mesmo sabendo que isso a deixava infeliz. Ninguém entendia como algo assim poderia deixá-la infeliz. Mas ele entendia.
Eles dois passaram anos e anos juntos. Sempre sendo sinceros um com o outro. E com os outros. Enquanto, muitas vezes, as outras pessoas mentiam, tentavam arrancar favores fazendo drama, faziam promessas sem ter a menor intenção de cumpri-las, eles iam contra essa corrente. E evitar os cumprimentos de aniversário eram a forma dela de não se irritar com a incoerência dessas pessoas. Mesmo ela gostando muito dele e sabendo que os cumprimentos dele seriam sinceros, ela cortava de todo mundo para não ter de dar explicações de por que ela abria certas exceções.
O tempo passou, a idade avançou bastante... E um dia ele adoeceu. Mesmo eles tendo prometido que iriam morrer juntos, ela fez questão de dizer que ele estava quebrando a parte dele do acordo. Ele pediu desculpas, mas certas coisas ele não podia evitar. Duas semanas depois, o médico a deixou sozinha com ele para que se despedissem. Ela chorou um pouco e disse que o perdoava por ter quebrado aquela promessa, afinal, foi a única vez na vida em que ele não havia cumprido o que prometera. Ele riu e isso a deixou confusa. Ela perguntou do que ele estava rindo e ele disse que tinha quebrado mais uma promessa, mas que era hora de ela saber o que era.
O último beijo deles foi cheio de carinho e travessura. Quando ela chegou em casa, ela foi fuçar no fundo do armário do quarto, seguindo as instruções dele. Bem escondida estava um pacote de papel pardo e barbante. Era um caderno. Ao ler suas páginas, ela começou a chorar.
"Minha tortinha,
Parabéns pelo seu aniversário de 17 anos! Fiquei feliz de ver que você gostou das margaridas que te dei mês passado. Vê se não perde o livro onde colocou uma delas pra secar, viu?
Do seu tortinha, hoje e sempre."
"Minha tortinha,
Hoje fazemos 23 anos juntos... Parece que foram cinco dias. A cada momento você me surpreende com seu coração enorme e sua generosidade, que não pratica apenas comigo, mas com todos à sua volta. Espero ser mais como você a cada dia que passamos juntos.
Do seu tortinha, hoje e sempre."
"Minha tortinha,
Acredita que nosso primeiro beijo foi há 45 anos? Lembro como se fosse hoje a sua empolgação de achar aquele sorvete da máquina de suco da nossa infância. Você pediu um de uva e lambuzou até o nariz! Penso que você vai gostar quando descobrir que lá na praça da igreja tem esse sorvete. Aposto que você vai lambuzar o nariz de novo. Você fica linda quando faz isso.
Do seu tortinha, hoje e sempre."
Ali estavam os registros de todos os aniversários dela e deles juntos. Ela abraçou o caderno, colocou-o embaixo do travesseiro dela e disse:
-- Seu sem vergonha... Obrigada...
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