Undiagnosed, but I'm pretty sure
ódio 23
florbela espanca e samba
não dá. eu sei que não dá.
realmente, não tem como seu paladar infantil deglutir florbela espanca e samba assim, logo de manhã. as cores de almodóvar te fazem espirrar. minha hilda hilst extrapola os limites do seu pudor católico que você nem viu ser instalado em você. toda noite você fala "você é demais" e eu digo "sim, eu sou demais mesmo", mas não estamos dizendo a mesma coisa. meu licor atropela sua coca-cola. meu grito machuca sua polidez exacerbada. minha latinidade parece ferir sua admiração anglo-saxã.
minha pele de sol com decote, com pernas e com pés descalços precisam ser explorados com vivacidade, com curiosidade. com vontade. preciso correr a mata e descansar na praia. um dia inteiro no mar, até a pele ressecar de tanto sal. preciso de cabelo bem bagunçado e de sentar no chão pra comer fruta. ler deitada na rede. preciso da minha camiseta colorida dos paralamas do sucesso e dos chinelos de dedo e das unhas vermelhas.
eu realmente sou demais. demais pra você comportar. então vá! vá achar a moça lisa, sem texturas. a sua vanilla aesthetic girl. branca e bege claro. que fala inglês com sotaque britânico porque assiste muitos filmes britânicos e que nunca foi ao reino unido. que usa coque, joias que não combinam com jeans pantalona e bolsa de couro grande demais. aquela que não discorda de você em voz mansa enquanto toma um cappuccino.
vá embora. vá achar menos, pois é o que combina mais com o seu tamanho.
everything is blue
everything is blue
everything is peaceful
and slow, and sunny
everything is bluish and young
everything is escaping through my fingers
like the sand in an hourglass
everything is bluesy
everything is growing and darkening
as the night falls in your eyes
everything is blue
everything is changing
and I can't reach that old blue anymore
untitled
tic-tac
perdi a capacidade de ver.
eu olho, mas não vejo mais. não consigo fixar os olhos nos detalhes, nas cores.
estou sempre com pressa. tenho a sensação constante de uma pressa escrota, uma pressa que me sussurra palavras maldosas.
"você deveria estar fazendo essa outra coisa."
"isso é fútil."
"o tempo passa e você não realiza nada aqui parada, olhando."
eu mal consigo ler também. ler é processo, é aprendizado, mas a pressa fala que não. ela fala que é fuga.
queria muito me livrar dessa pressa. afogá-la na privada ou socá-la num poste de luz. queria moê-la num pilão, carregar esse pó de pressa pro litoral e jogar tudo no mar para que ela more pro resto da vida na barriga de alguma baleia. acho que assim ela calaria a boca. e aí sim, eu poderia ver de novo. palavras. flores, luzes. eu poderia me demorar em cada coisa pelo tempo necessário para que cada coisa me inunde e me mude.
por enquanto, sigo na pressa. correndo todos os dias, fazendo as mesmas coisas, falando as mesmas frases, vendo os mesmos rostos. sempre a mesma.
para quem tem tanta pressa, sigo parada no tempo.
dias de nós
ele sempre me acompanha.
acordo, escovo os dentes e lavo o rosto com aquela preguiça de toda manhã. penteio meu cabelo, coloco a roupa, os sapatos e saio com ele.
no trabalho, são papeis, pessoas, telefonemas para atender. divido minha atenção com muitas coisas, mas não deixo de perceber a sua presença.
no almoço, como salada, frango com farofa e o engulo junto. suco nenhum tira o gosto dele da minha boca.
no caminho de volta pra casa vivo cenários imaginários olhando pela janela do ônibus, converso comigo mesma, converso com ele, refaço listas de tarefas, divido as músicas nos fones de ouvido com ele.
desço a rua de casa escutando marchinhas de carnaval e o sinto pulsando no ritmo:
jogo de azar
gypsy
ódio 23
meus sentimentos não precisam passar pelo seu crivo para serem importantes. a importância deles é intrínseca.
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Ele: Por que o abandonou? Ela: Nunca fico muito tempo no mesmo lugar. “Gypsy Woman”, de Nikolai Yaroshenko (1886)