Liberdade

Em 2007, indo à padaria buscar pão e leite (só eu ia buscar pão e leite), encontrei um cachorro no fim da rua em que morava. Um cão abandonado, eu acho. Era daquele tipo com pelo preto e manchinhas caramelo. Grosso como uma escova de cerdas de piaçaba. Eu teria passado direto por ele se não fosse pelo que ele estava fazendo, que notei desde que consegui avistá-lo.

Quando cheguei mais perto do fim da rua, notei que havia um monte de areia na calçada do vizinho, pois eles estavam reformando a casa. O cachorro estava pulando e rolando na areia alucinadamente. Achei tão curioso que desacelerei o passo até parar diante do cachorro. Eu raramente desacelero porque raramente encontro algo digno disso. Ele ficou lá rolando e eu olhando, achando a coisa mais engraçadinha do mundo. De repente ele parou e sentou na areia, olhando para mim, totalmente sujo.

Ficamos ali, parados, nos olhando nos olhos. Cães sempre olham nos olhos, já repararam? Aqueles olhos cor de mel não me diziam “Quem é você?”, nem “Oi!” e muito menos “Tá olhando o quê?!” Eles pareciam tão despreocupados e conhecidos. Era como se fossemos dois amigos que se conheciam muito bem, que estavam apenas sentados um ao lado do outro aproveitando um breve momento de silêncio. Quis tirar uma foto daquele cachorro, mas tive medo de me mover e estragar o momento, então fiquei parada um pouco mais. Estava tão gostoso que não sei quanto tempo fiquei ali. Eventualmente fui à padaria e quando voltei, o cachorro não estava mais lá.

Aquela imagem ficou gravada na minha mente. Daquele cachorro sem dono se esbaldando na areia. Ele não parecia estar com fome, nem com medo e nem carente. Muito estranhamente era claro que ele não pensava onde ia passar a noite, se haveria alguém para quem voltar ou de quem fugir. Estava apenas se divertindo tranquilamente na areia. E às vezes eu me flagro invejando aquele cachorro. Tenho todos os tipos de fome, medo e carência que não sei como erradicar. Perco meu tempo com coisas e pessoas tão pequenas que fico irritada comigo mesma por fazer isso. Mas enfim, um dia aprenderei como abrir mão desse hábito de pensar demais.

Não sei se foi triste ou feliz o dia em que encontrei um cão que era mais sábio que eu, mas isso não importa. Contanto que um dia eu consiga atingir o grau de liberdade que aquele bichinho me mostrou, isso não importa.

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ódio 23

meus sentimentos não precisam passar pelo seu crivo para serem importantes. a importância deles é intrínseca.