A chuva começou assim que nos colocamos a caminho da praia para ver os fogos. Poucas pessoas se aventuraram a ir para a areia, então pudemos escolher bem onde ficaríamos. O vento estava sem misericórdia e soprava contra nossos rostos, levantando as saídas de banho e vestidos. Seu fôlego irritou as nuvens do céu encoberto fazendo-as se aglomerar. Elas estavam numa cor de chumbo profunda, mesclando céu e oceano, assim como todos os olhares ali me pareciam uma única massa sem personalidade.
Os fogos se iniciaram minutos antes do último segundo do ano. As cores se espalhavam nas duas extremidades do calçadão, disputando a atenção com a chuva fina e gelada que nos fazia fechar os olhos. Eu fechava os meus de quando em quando, na tentativa de aguçar os outros sentidos. Queria sentir melhor o cheiro das águas – da chuva e do mar – e da pólvora. De repente um champanhe é aberto e seu aroma borbulhante entra na mistura. O som da rolha alçando voo coincidiu com uma dor aguda no meu peito. Tomei uns goles da garrafa espremendo meus olhos para que as lágrimas salgadas não viessem se intrometer no sabor da bebida. Meus ouvidos captaram as explosões dos fogos se infiltrando em meio às das ondas, como se fossem saudações a Iemanjá.
As vozes se agitaram, algumas pessoas correram ao encontro de outras e outras correram para casa. Mais fogos, foguetes, contagem regressiva e… Enfim, era meia-noite. “Feliz Ano Novo, família…” Todos os braços se encheram de abraços, mas o abraço que eu queria tanto dar, mas não podia, joguei no vento pela minha expiração. Um suspiro só e busquei conforto brincando com os pés naquela areia molhada.
Fui caminhando lentamente, olhando sempre para frente, em direção ao mar. Minha mão se encheu com uma mão prima-irmã e recebi, indiretamente, uma energia doce que havia muito eu não sentia. Eu via a espuma branca das ondas aparecerem debilmente, chorando os lamentos que a chuva disfarçava em mim. Cada investida do vento revelava a tempestade que estava em alto-mar. Os relâmpagos iluminavam as nuvens de chumbo, delineando seu contorno em chumaços mais claros, sem dizer palavra. Aquela tormenta era silenciosa e os trovões só constavam mesmo na minha mente.
Soltei os cabelos e fui resgatar um pedaço de esperança no oceano. Encarei o mar e engoli meus trovões, mas foi nesse momento que minha alma se desmanchou. Pulei as sete ondas para buscar a sorte que me faltou nas últimas semanas. O nó que estava na minha garganta se desfez em súplica à sereia para que me ensinasse com sua voz suave a melodia da paz que preciso cantar. Supliquei pela volta do sorriso, do olhar carinhoso das íris de quem amo, nas quais vejo tantos universos… E mais importante, pedi que recuperasse os universos verdadeiros que viram em mim um dia. Mergulhei.
Embaixo d’água foi que meu choro ecoou, mas ele permaneceu sob a superfície. Com as roupas encharcadas e o corpo todo salgado, retornei à areia. O vento me fazia tremer mais do que já tremia por ter tantos medos me atormentando.
Caminhei tirando o excesso de água das roupas, tentando me aquecer. Todos se preparavam para voltar para casa quando minha atenção foi chamada mais uma vez para o céu. Naquele momento eu me perguntava retoricamente se minhas súplicas foram ouvidas e meus olhos se desviaram para as nuvens, se surpreendendo. Uma pequena estrela, uma apenas, encontrou espaço entre as nuvens e brilhou toda a sua luz azul naquele céu pesado. Tomei essa estrela como a resposta que eu precisava e fui para casa, deixando sepultados no mar todos aqueles medos.
Maria Bethânia - Yemanjá Rainha do Mar
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