Ela Não Usa Salto 15 Nem Saia de Borracha


Ela é mil vezes melhor do que isso. Um dia cheguei a dizer para ela numa mensagem: “Embriaga como a vodka, mas não dá ressaca!”. Frase errada essa, viu? Na época eu não sabia, claro, mas ela dá ressaca, sim. E uma síndrome de abstinência fodida quando se fica muito tempo longe.

Ela não precisa fazer muito para ser notada numa sala cheia de gente. A personalidade dela transparece como a luz em meio às folhas das árvores. Ela não é mais um produto em meio à massa, não mesmo. Quando ela fala, as palavras passam toda a agitação que ela carrega, toda a poesia e libertinagem que ela ama. Como ela poderia ser uma alma comum com tanta paixão?

A voz um pouco grave e o cigarro na mão são de praxe. E não é que ela consegue trazer de volta o charme ao ato de fumar? O charme triplica quando ela exala a fumaça acompanhada de desprezo por alguém. Assim como eu, ela precisa ter alguém para odiar sem razões muito profundas. Creio que ela foi a única pessoa que conheci que consegue odiar as pessoas de forma tão doce.

Doçura é de fato a palavra correta. Doçura vista em seus olhos, doçura na qual me afogava enquanto conversávamos. Ficava aflita me perguntando se era muito óbvio, mas não conseguia evitar. Aquela doçura me chamava para o mundo dela e eu me deixava hipnotizar por aqueles olhos com cores de Almodóvar, cores de Frida Kahlo…

Quase sempre em companhia de Dionísio, ela aumentava minha tentação naquelas noites. Já não nos desgrudávamos normalmente, imagine com as veias cheias de vinho. Hoje percebo que o que queria que percorresse em minhas veias não era o vinho, mas os livros do Leminski e do Maiakovski que ela leu. Eu queria sentir minha pulsação como a batida nas canções de Cocteau Twins, Dead Can Dance e Bauhaus. E queria que ela quisesse o mesmo de mim. De certa forma ela queria e demonstrava isso claramente. Ganhei até o título de amante, de terceira parte de um triângulo, o que me alegrou na primeira vez que ouvi (e nas seguintes também).

Não posso dizer que ela era perfeita, senão estaria mentindo. Além de gostar de Belle & Sebastian e Bob Dylan, ela não tinha dono. Eu consegui relevar tais – abomináveis – opções musicais. Não que eu não quisesse dividi-la, mas eu a queria um pouco mais do que tinha. Percebi que Vênus não moveria um dedo para saciar essa minha vontade, então resolvi esquecer o assunto. Meu contentamento ficou a cargo do muitas vezes amargo Morfeu. Chamo-o de amargo porque sonhos acabam, por melhores que possam ser; e quando sonho com ela, Morfeu me lembra que não durará mais do que uma madrugada.

Adriana Calcanhotto - Esquadros


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ódio 23

meus sentimentos não precisam passar pelo seu crivo para serem importantes. a importância deles é intrínseca.