Ela é mil vezes melhor do que isso.
Um dia cheguei a dizer para ela numa mensagem: “Embriaga como a vodka, mas não
dá ressaca!”. Frase errada essa, viu? Na época eu não sabia, claro, mas ela dá
ressaca, sim. E uma síndrome de abstinência fodida quando se fica muito tempo
longe.
Ela não precisa fazer muito para ser
notada numa sala cheia de gente. A personalidade dela transparece como a luz em
meio às folhas das árvores. Ela não é mais um produto em meio à massa, não
mesmo. Quando ela fala, as palavras passam toda a agitação que ela carrega,
toda a poesia e libertinagem que ela ama. Como ela poderia ser uma alma comum
com tanta paixão?
A voz um pouco grave e o cigarro na
mão são de praxe. E não é que ela consegue trazer de volta o charme ao ato de
fumar? O charme triplica quando ela exala a fumaça acompanhada de desprezo por
alguém. Assim como eu, ela precisa ter alguém para odiar sem razões muito
profundas. Creio que ela foi a única pessoa que conheci que consegue odiar as
pessoas de forma tão doce.
Doçura é de fato a palavra correta.
Doçura vista em seus olhos, doçura na qual me afogava enquanto conversávamos.
Ficava aflita me perguntando se era muito óbvio, mas não conseguia evitar.
Aquela doçura me chamava para o mundo dela e eu me deixava hipnotizar por
aqueles olhos com cores de Almodóvar, cores de Frida Kahlo…
Quase sempre em companhia de
Dionísio, ela aumentava minha tentação naquelas noites. Já não nos
desgrudávamos normalmente, imagine com as veias cheias de vinho. Hoje percebo
que o que queria que percorresse em minhas veias não era o vinho, mas os livros
do Leminski e do Maiakovski que ela leu. Eu queria sentir minha pulsação como a
batida nas canções de Cocteau Twins, Dead Can Dance e Bauhaus. E queria que ela
quisesse o mesmo de mim. De certa forma ela queria e demonstrava isso
claramente. Ganhei até o título de amante, de terceira parte de um triângulo, o
que me alegrou na primeira vez que ouvi (e nas seguintes também).
Não posso dizer que ela era perfeita,
senão estaria mentindo. Além de gostar de Belle & Sebastian e Bob Dylan,
ela não tinha dono. Eu consegui relevar tais – abomináveis – opções musicais.
Não que eu não quisesse dividi-la, mas eu a queria um pouco mais do que tinha.
Percebi que Vênus não moveria um dedo para saciar essa minha vontade, então
resolvi esquecer o assunto. Meu contentamento ficou a cargo do muitas vezes
amargo Morfeu. Chamo-o de amargo porque sonhos acabam, por melhores que possam
ser; e quando sonho com ela, Morfeu me lembra que não durará mais do que uma
madrugada.
Adriana Calcanhotto - Esquadros
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