As palavras me escapam. Milhões de
lembranças borbulham dentro de mim, derretendo, queimando, vazando para todos
os lados. Em vão tento remendar as frestas por onde vazam, mas queimo as mãos
tentando.
Nessa noite eu entendo o poetinha ao
flagrar os móveis me olhando com pena. Busco um copo de leite na geladeira para
afogar minhas lembranças. Bebo em goles grandes na esperança de que o leite
gelado as esfrie e apague como a água apaga o fogo.
Eu me agarro ao copo como se fosse
minha salvação. Fecho os olhos bem apertados, travando uma batalha mental
contra os fatos que estavam adormecidos até hoje. Madrugadas em carros diante
de bares esperando meu pai ficar sóbrio. A tristeza refletida no rosto de minha
mãe só não era maior do que minha aflição. Gritos e humilhações. Inverno,
escola e o cheiro dos pinheiros. "As Aventuras de Tintim", comer
dadinho e guarda-chuvinha de chocolate, brincar na rua o dia todo antes de
passar noites em claro ouvindo minha mãe me mandando ir dormir, enquanto ela fuma
sozinha na sala.
Dou mais três goles seguidos. Ajeito
as almofadas, meu travesseiro na cama e ligo a TV. Fecho os olhos de novo.
Manhãs agoniantes e cheiro de combustível. "Pingu", "Vovô
Cornélio", meias, quebra-cabeças, frutas e bolachas. Jogar
"Sonic" em um dia quente de verão. Hálito de bebida alcoólica.
Abandono. Três dias de abandono em sono profundo. Olho o relógio; são duas e
meia da manhã. Começos sem fim com o silêncio como fechamento. O mesmo silêncio
que cala o último gole de leite.
(A TV exibe um casal apaixonado. A
cena muda e uma menina se afoga).
“Meu
Deus! Agora é de verdade mesmo!”
Somente o gosto do leite permanece na
minha boca. Meu desejo mais profundo é que permaneçam apenas as lembranças
boas. Quero um passado de sonho em que notas russas, céu estrelado e mar sejam
o tema principal. Quero um presente de carinho, alegria e o cheiro dele. Quero
um futuro em que eu não precise mais fazer as malas; nunca mais. E quero uma
consciência que não me torture, me fazendo fugir dos obstáculos, cuja única
saída que encontra é o pensamento “Death
sounds nice”.
Tchaikovsky - 11 The Nutcracker Ballet Suite,
Op. 71a: VIII. Waltz Of The Flowers
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