Entro no quarto depois do banho ainda
enrolada na toalha. Organizo as roupas que estão espalhadas em cima da cômoda,
escolho o que vou vestir e cubro meu corpo vagarosamente.
A chuva lá fora acentua o dia vazio
que acabou e a noite inerte que está começando. Passo perfume e tento relaxar
com essa aromaterapia de improviso. Abro a janela e sinto o vento trazendo as
gotas de chuva pro meu rosto quente do banho, mas fecho imediatamente. O vento
frio me atingiu como a sua frieza duas noites atrás.
Ajeito as almofadas e o edredom na
cama e coloco para tocar uma música da Legião Urbana, uma das minhas bandas favoritas.
A melodia de “Maurício” ecoa pelo quarto e fecho os olhos por um momento, mas
logo os abro. O ritmo me faz bater os dedos no edredom enquanto me cubro com
ele. Cantarolo baixinho os versos da música:
“Já não sei dizer se ainda sei sentir
O meu coração já não me pertence
Já não quer mais me obedecer
Parece agora estar tão cansado quanto
eu”
Deito e começo a olhar fotos suas.
Seus olhos, seu sorriso. Na minha cabeça repasso a discussão que tivemos. Penso
mais uma vez em como a confiança entre nós está danificada (ou em como ela
sempre foi assim, não tenho certeza). Como mostrar que digo a verdade? E que
creio quando me fala o que pensa e sente? Essa falta de credibilidade nos
distancia, mas não quero que isso aconteça. Nunca me vi me distanciando de você
desse jeito. Bom, nunca vi isso acontecendo de nenhum jeito pra ser sincera.
Você é meu melhor amigo.
Tudo se confunde em mim e fico sem
ideias. Continuo a cantar aqueles versos que saem automaticamente da minha
boca:
“Até pensei que era mais por não saber
Que ainda sou capaz de acreditar
Me sinto tão só
E dizem que a solidão até que me cai
bem”
A chuva bate forte contra a janela
fechada. Deixo escapar um suspiro e nele contido o desejo de me deitar em seus
braços.
Minha mente volta para a discussão e
vejo que não sei o que fazer. Não sei por que o que temos de bom não se
sobrepõe. As conversas que temos, quando me faz rir e quando consigo te fazer
rir também. O momento em que ouvimos juntos uma música que gostamos. Quando
ficamos bobos na cama e tudo fica engraçado. O jeito como nos abraçamos que faz
meu nariz tocar seu pescoço e sinto seu cheiro bom. E você me diz exatamente
isso ao cheirar meus cabelos. Não entendo porque esse empecilho continua
aparecendo e sempre em momentos tão pobres.
Eu me esforço pra encontrar uma
solução, mas a inércia da noite infectou meu raciocínio. Só consigo pensar que
jamais me perdoaria se perdesse isso tudo por não tentar.
“Às vezes faço planos
Às vezes quero ir
Pra algum país distante
Voltar a ser feliz”
Mudo pra uma posição mais confortável
na cama e analiso com cuidado presente e passado. Os seus argumentos, os meus
argumentos. Nada. Posto-os diante de mim, meço-os, comparo-os. Nada ainda.
Nossa situação virou um quebra-cabeça e parece que a solução está em um universo
paralelo ao que vivemos.
Você permitiu que eu entrasse um
pouco mais na sua vida. Não pense que passou despercebido, porque não passou.
Sua atitude me mostrou que você se importa. Creio que sabe o quanto aprecio
isso, mas me perguntei se eu tinha o direito de exigir uma mudança radical de
tudo. Você me contou do seu jeito de ser e dos seus conflitos. Como poderia eu
querer que você simplesmente mudasse de repente...? Bebo alguns goles de chá
preto e reconheço: realmente, não tinha o direito.
Queria te ver mais e ainda quero.
Aperto meu cachorro de pelúcia contra o peito em sinal de saudade. Lembro de
quando ele representava você quando morava ainda em outra cidade e dou um leve
sorriso. Não, não posso deixar esse sentimento tomar conta; já havia decidido
isso anteriormente. Pensei, então, em não mais pedir por mudanças e deixar que
os dias nos levassem um ao encontro do outro. Também pensei que as vivências do
dia-a-dia mostrariam que confio em você e que pode confiar em mim. Acreditei
que o tempo seria um aliado se tivéssemos paciência quando vim pra cá. Acreditei
que nos adaptaríamos devagar e chegaríamos ao que queríamos contigo caminhando
no seu ritmo e eu no meu, porém lado a lado. Pelo visto, eu me enganei, já que
voltamos à estaca zero e eu não consigo saber como.
“Já não sei dizer o que aconteceu
Se tudo que sonhei foi mesmo um sonho
meu
Se meu desejo então já se realizou
O que fazer depois
Pra onde é que eu vou?”
Apesar dessa charada pendente, olho
pra você e vejo o mundo. Um mundo de palavras doces que você diz sem eu estar
esperando, de abraços e ideias compartilhados, de apoio e motivação
verdadeiros, de beijos sem fim. Fecho os olhos cansados, já passam das 4 da
manhã. Olho pro seu rosto mais uma vez e respiro fundo. Percebo que a noite
está acabando e embora tenha buscando intensamente uma saída, falhei e as peças
continuam espalhadas. Canto meio que sem voz os últimos versos da música e me preparo
para dormir, com o anseio de que Morfeu possa deixar uma dica de como proceder
em um sonho. Senão, ao menos que me faça sonhar contigo.
“Eu vi você voltar pra mim
Eu vi você voltar pra mim
Eu vi você voltar pra mim
Eu vi você voltar pra mim”
Legião Urbana - Maurício
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