Nesta manhã, sentada na cama, percebi
que não há ninguém comigo. Bem, continuo cercada de pessoas, é claro, mas nenhuma
é relevante pra mim. Ninguém que vive por aqui conseguiu, mesmo depois de tanto
tempo, se tornar pra mim algo além de um ser que vive no mesmo espaço que eu.
Estava aqui, ouvindo o silêncio, sem um
papel na mão nem o que fazer comigo, quando tive essa desagradável revelação.
Apesar de me encontrar nessas condições há muito tempo, somente agora me dei
conta. Tentei me voltar para as minhas obrigações, talvez buscando algo que não
me parecesse totalmente fútil. Não obtive muito sucesso. Tudo à minha volta
parece sem conteúdo.
Depois de algumas horas remoendo essa
situação, decidi que preciso mudar todos os meus esquemas. A partir de agora
vou focar em fazer tudo só para uma pessoa. Uma xícara, um pão doce, um bule de
café são o suficiente. Guardo a esperança de em breve não mais precisar comprar
cigarros. Vou comprar um vaso de margaridas e colocar no parapeito da janela da
sala, onde me sento para ler, me entregando a um vinho branco em madrugada de
lua cheia. Acho que também vou comprar um peixe beta. Um aquário ficaria bom a
um canto da escrivaninha, na parte encostada na parede, junto do meu Buda
sorridente. O peixe vai se chamar John Cusack e ele me fará companhia no
jantar, ouvindo pacientemente como foi meu dia.
Mesmo com todas essas mudanças, esse
incômodo não vai embora e considero dificílimo enfrentar... Não sei me livrar do seu nome na minha
cabeça o tempo todo.
Mesmo sendo o meio do verão, a noite
não parece muito viva. No meu corpo cansado a insônia governa sem piedade.
Sinto um vazio profundo, meu lençol se acinzenta e, de repente, os travesseiros
são muitos. Até meus óculos na estante parecem fora de lugar.
As quatro paredes desse quarto estão
me prendendo como um caixão, então, eu abro a janela buscando algum tipo de
fuga, ouvindo o vento uivar como um lobo lá fora. Isso soa como um chamado para
as minhas lembranças e a nostalgia brota por entre as poucas nuvens no céu.
Right face, wrong time, she's
sweet (But I don't wanna fall in love) Too late, so deep, better run cause (I
don't wanna fall in love) Can't sleep, can't eat, can't think straight (I don't
wanna)*. Sinto o vento me arrepiando e, enquanto
fico olhando as estrelas, confidencio à lua em quarto minguante o que não ouso
dizer em voz alta pra mais ninguém: sinto a sua falta, a única pessoa que conseguiu
ser pra mim mais que um ser que vive (bom, que vivia...) no mesmo espaço que eu.
PS: Dobrei aquele poema e o guardei
dentro do livro que você me deu, pensando em arranjar outro amigo com quem
passar os dias bons e também os dias ruins.
*Referência à música “I
Don’t Wanna Fall In Love”, do She
Wants Revenge.
She Wants Revenge - I Don't Wanna Fall In Love
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