Saio e me ocupo com coisas diversas, faço caminhada,
compras. Volto pra casa e arrumo as gavetas, esperando que minha cabeça logo se
encha de algo importante. Ilusão. Quando organizo os livros na estante, um
bilhetinho cai no chão. Essa letra... Droga. Preciso sair daqui.
Na rua não encontro nada de interessante pra fazer. Penso “Hoje
tinha de ser domingo mesmo”. Pego um ônibus até a praça central da cidade.
Passo na livraria do shopping e folheio alguns livros. Eu me distraio até resolver
ler poesias. Mas eu me julgo forte e penso que Álvares de Azevedo não pode me fazer
mal:
“Sim! coroemos as noites
Com as rosas do himeneu...
Entre flores de laranja
Serás minha e serei teu!”
É, isso serve para que eu mude de
opinião. Esse dia me dá a certeza de que os
deuses existem e que estão me torturando para sua diversão particular. Saio de
lá acovardada pelo olhar de condenação de todos aqueles livros.
O sol começa a baixar e volto para casa. Na volta, eu me sento
ao lado da janela do ônibus e olho o movimento da rua. As luzes se acendem e
vejo o pôr-do-sol no banhado, quando passamos por uma sorveteria bem familiar.
Suspiro, mas chacoalho a cabeça e volto o olhar para o caminho. Insisto em
ignorar.
Depois de voltas e voltas, desço no meu ponto e sigo pela
minha rua. Começa a garoar e me lembro de ter andado de mãos dadas sob uma
garoa como aquela, bem naquela curva.
Entro pela porta aborrecida como nunca. Nada adiantou. Fiz
de tudo, rodei e rodei, mas o que tento ignorar acaba aparecendo em minhas
mãos, meus olhos, meu corpo todo quando me olho no espelho.
Tiro a roupa
molhada e gelada e entro na banheira quente. Tudo que evitei entra comigo e a
água transborda no piso. No começo da noite nem ligo mais de ter tudo na
cabeça, me martelando, enquanto tenho a comida queimando no fogão. É quando sei
que estás aqui pra ficar. Você é impossível de ignorar, como o lugar vazio do meu
lado enquanto janto.
Pink Floyd - Wish You Were Here
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