Bebo. Bebo para anestesiar meus músculos, meus nervos. Não aguento mais senti-los repuxados. Viro copo atrás de copo para amortecer o músculo mais importante, aquele que pulsa por você e está cansado de pulsar em vão.
Meu pensamento também não fica atrás e repuxa a memória. Ela vibra a cada vez que a bebida treme no copo. Vejo no líquido o reflexo do passado, o bom e o ruim. Hoje tudo se mistura e quero tudo como era; até o ruim quero de volta. A embriaguez faz o ruim parecer bom também.
Como não posso reconstruir nada, o reflexo me entristece. Ele me enfurece e o ataco com a boca novamente. Quero-o em mim, quero digeri-lo, senti-lo na veia dando novo impulso ao pulso. E bebo, bebo e bebo mais um pouco. Queimando a garganta, aquecendo meu corpo, meu rosto (quem disse que o toque da miséria é frio?).
Minha mente vira outra, ela se ilude na milagrosa cura alcoólica. Bebo mais para curar de vez. Preciso me curar de vez. Mais um, dois, dez goles. Quentes. Que rasgam. Mais uma dose para terminar de embaçar meus olhos. Assim deixo de te ver. Meus dedos não se contorcem mais de querer sua pele. Eles não sentem mais nada. Minha boca não lamenta mais, só engole a bebida milagrosa. Divina. Trans-lucidez que consegue me trazer paz.
Último copo servido, último gole. Última gota. Acabou a bebida. Mesmo porque, não tem mais espaço na escrivaninha. Mas não preciso mais de espaço. Meu corpo transcendeu a si mesmo, não tem mais barreiras. Sinto-me leve, livre. Libertei-me, sei que agora posso voar de novo… Apenas sinto a brisa que vem pela janela, refrescando o calor solto que restou de mim… A tontura passou, a boca sossegou… Acabou mesmo, sinto-me feliz, genuinamente feliz…
(Vomito tudo o que engoli de nós dois, desmaio no chão do quarto e sei que amanhã a ressaca vai gargalhar de como sou ingênua e burra).
Amy Winehouse - You Know I'm No Good
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