Mania Irritante de Perguntarem Quem Sou

Minha janela me chamou para arejar a cabeça. Ela percebeu que eu preciso ver um pouco do mundo lá fora. Cá estou, um pouco descrente, olhando a luz sumindo enquanto o sol se deita. O movimento na rua cresce conforme as pessoas retornam às suas casas. Até os grilos parecem estar com a vida mais agitada que a minha.

Sentar aqui faz eu me sentir um pássaro. Sinto as asas, mas mal posso espreguiçá-las, quanto mais voar. Esse apartamento me oprime, me deprime. Gaiola, me impede que eu faça parte das nuvens. Apenas meus tolos pensamentos as alcançam de quando em vez, quando a vida adulta ao redor não os obriga a descer e encarar o que tem de ser feito. Um detalhe, porém, me deixa sem rumo: afinal de contas, o que é que tem de ser feito? Ninguém me disse qual é a lista padrão de tarefas obrigatórias que moldarão minha vida.

Tudo do outro lado da janela é mutável e igual, me dividindo mais e mais. Como algo que segue uma rotina tão ridiculamente previsível consegue comportar tanta diferença, liberdade e espaço? As coisas todas parecem seguir um rumo bem traçado, quase que de forma instintiva. Às vezes penso que talvez eu seja um pássaro atingido pela pedra de algum estilingue desocupado (nenhum garoto deve brincar mais com isso) e fiquei com danos na cabeça. Perdi os instintos, de morte e de vida, e a capacidade de saber para onde diabos é o norte. No céu as estrelas surgem, mas elas se apresentam apenas como um adorno singelo. Eu que busque minha bússola em outro lugar.

Essa janela me mostra um mundo de possibilidades. Tantos lugares a ir, matas e bichos a ver, pessoas com quem aprender. Maldição esta de não distinguir o que me serve, o que me reflete. Como saber algo assim? Nem eu mesma me dou um tempo. Dores aparecem, somem e ressuscitam. Nunca sei quando consigo ser forte.

Meus gostos mudam, não sei se é porque amadureci, regredi ou por puro acaso que meu interesse acaba. Só sei que no fim acabo me perguntando as mesmas coisas, perguntas que todos nós devemos carregar conosco em algum cantinho. Nunca consigo responder quem sou, por que estou aqui e muito menos para onde estou indo. E que desgosto que dá alguém me perguntar qualquer uma dessas coisas e se indignar, perguntando de volta “Mas como assim não sabe?”. Vontade de mandar a pessoa pra… Que obrigação eu tenho de saber?

Talvez eu deva ser só assim, confusa até a velhice, se nela eu chegar, largando tudo que começo e servindo de modelo de como não ser. Se essa é uma chance, então por que meu eu-pássaro quer tanto sentir o vento? Por que quer segui-lo sem se importar muito com o que ele oferece? Queria ter a tranquilidade de apenas seguir enquanto me servir e partir quando for necessário, sem me importar, melhor, sem ouvir que sou maluca e que está na hora de me estabelecer. Arrumar um emprego fixo, construir carreira, namorar alguém que more perto. O tempo sempre nos traz um ninho bom, mais que migalhas para comer e um parceiro que nos acompanhe quando for preciso migrar. E se não trouxer, que isso não seja o fim do mundo.

Quero me atirar dessa janela, sentir a queda e de repente o corpo se erguer na velocidade. Quero cair de tristeza, de revolta, de amor, passar pelas mudanças que me estão reservadas sem visar a linha de chegada. Enfim, quero voar! Chega desse sofrimento patético! Chega! Não aguento mais, mas não sei sair disso. Droga de instintos danificados…

Se alguém, em algum lugar, souber como eu faço para transformar meu eu-sofrê em eu-cisne, eu-beija-flor, eu-águia (e quantos mais pássaros me couber ser), por favor, não se envergonhe e me conte.

Fancis Hime e Chico Buarque de Hollanda - Passaredo

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ódio 23

meus sentimentos não precisam passar pelo seu crivo para serem importantes. a importância deles é intrínseca.