dias de nós

 ele sempre me acompanha.

acordo, escovo os dentes e lavo o rosto com aquela preguiça de toda manhã. penteio meu cabelo, coloco a roupa, os sapatos e saio com ele.

no trabalho, são papeis, pessoas, telefonemas para atender. divido minha atenção com muitas coisas, mas não deixo de perceber a sua presença.

no almoço, como salada, frango com farofa e o engulo junto. suco nenhum tira o gosto dele da minha boca.

no caminho de volta pra casa vivo cenários imaginários olhando pela janela do ônibus, converso comigo mesma, converso com ele, refaço listas de tarefas, divido as músicas nos fones de ouvido com ele.

desço a rua de casa escutando marchinhas de carnaval e o sinto pulsando no ritmo:

"eu dei
o que foi que você deu meu bem?
eu dei
guarde um pouco para mim também
não sei, se você fala por falar sem meditar"

no jantar, o gosto dele se intensifica e me faz querer dobrar a sobremesa.

depois de tudo, do banho quentinho, do hidratante perfumado e das músicas lentas para dormir, finalmente posso me desatar dele. o nó na garganta. e finalmente, mesmo que silenciosamente, eu me entrego ao alívio e me transbordo no travesseiro.

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ódio 23

meus sentimentos não precisam passar pelo seu crivo para serem importantes. a importância deles é intrínseca.