perdi a capacidade de ver.
eu olho, mas não vejo mais. não consigo fixar os olhos nos detalhes, nas cores.
estou sempre com pressa. tenho a sensação constante de uma pressa escrota, uma pressa que me sussurra palavras maldosas.
"você deveria estar fazendo essa outra coisa."
"isso é fútil."
"o tempo passa e você não realiza nada aqui parada, olhando."
eu mal consigo ler também. ler é processo, é aprendizado, mas a pressa fala que não. ela fala que é fuga.
queria muito me livrar dessa pressa. afogá-la na privada ou socá-la num poste de luz. queria moê-la num pilão, carregar esse pó de pressa pro litoral e jogar tudo no mar para que ela more pro resto da vida na barriga de alguma baleia. acho que assim ela calaria a boca. e aí sim, eu poderia ver de novo. palavras. flores, luzes. eu poderia me demorar em cada coisa pelo tempo necessário para que cada coisa me inunde e me mude.
por enquanto, sigo na pressa. correndo todos os dias, fazendo as mesmas coisas, falando as mesmas frases, vendo os mesmos rostos. sempre a mesma.
para quem tem tanta pressa, sigo parada no tempo.
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