Quando o assunto é gostar de alguém,
creio que tentar definir a outra pessoa é crueldade. Ninguém é passível deste
tipo de limitação. Não entendo como os outros fazem
tanto isso, gostar de certas coisas e colocar numa lista como se fossem
pré-requisitos. “Ela gosta dos mesmos seriados de TV, comidas e videogames que
eu. Ela é bem legal.” Tenho pena de quem faz isso. É cortar toda a beleza
da pessoa fora, recolher as estrelas em seus olhos e jogá-las no lixo.
Meu jeito de gostar de você vai além
dos detalhes. Aprecio também os defeitos, pois são eles que te diferenciam das
outras. É fácil encontrar várias fãs de tal banda, programa de TV ou filme, mas
só em você encontro certos prazeres. É engraçado te ver de mau-humor quando
está com fome, e depois um sorriso imenso emergir no seu rosto quando te faço
um lanche. Sua impulsividade provoca mudanças que aparecem mais do que do nada.
Elas vão desde o seu corte de cabelo até a cor da parede da sala, mas sempre
deixam o tédio do lado de fora.
Acho tudo isso muito curioso e tento
manter certo grau de distância para te observar. Às vezes acho que seria melhor
se eu nem fosse notado no ambiente como força ativa, se eu fosse um animal de
estimação. Um cão (dálmata por afinidade pessoal) de conversas grunhidas, andar
apressado e passeios noturnos. Seria fácil entrar no assento de trás do carro e
te acompanhar nas suas viagens.
Sendo eu, me afastaria na criação das
suas histórias: eu observaria deitado na cama como as frases aparecem, pendendo
da sua expressão pesada para depois machucarem o papel com tinta – a escrita
furiosa sobre os sonhos despedaçados. Ao fundo, as falas de algum filme em
preto e branco ao qual você nunca presta atenção. Sem perceber minha presença,
você sentaria tomando um pouco de suco de laranja, andando de short jeans, regatinha e
descalça pela casa, descansando no mormaço de um domingo qualquer. Você mudaria
o azul para verde e o verde para roxo, dependendo da luz do dia – e os dias
cinza te inspirariam a usar meias.
Se eu pudesse ser um cão, certamente
faria minha cama das suas roupas durante o dia, e de noite seria o lado delas,
senão você briga comigo. À noite, meus olhos espertos não perderiam o foco do
seu rosto adormecido nem por um segundo, velando seu sono. Eu seria o santo de
puro silêncio no canto do quarto, como uma verdadeira estátua para não perder o
ritmo da sua respiração pe sa da men te
pau sa da. Mas me assustaria de leve quando você levantasse de repente,
ainda dormindo, para fechar a janela e bloquear o vento gelado e o barulho das
árvores. É incrível como você faz algumas coisas nesse estado de
“piloto-automático”.
(Longo suspiro) De manhã eu sentaria
à janela para guardar a casa. Depois que você saísse, buscaria uma roupa sua e
deitaria nela para tomar sol. Imaginaria o que você estaria fazendo, o que
estaria pensando e ansiaria sua volta, pois de vez em quando me traz um
agradinho. Eu ficaria inquieto com sua ausência, mas não teria nada melhor que
um bom bife e carinho para redimir isso, e espero que esteja claro: carinho
acima de tudo. Não é uma imposição ser querido, mas acredito que com o tempo
minha presença te agradaria. Então, pular nas suas pernas e ser afagado no seu
colo seria uma grande alegria.
Erroll Garner - Misty
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