Acho que eu deveria ir para o litoral
da Toscana e deixar a maresia do Velho Mundo me desintoxicar de todos os meus
maus hábitos. Ao longo desses anos foram tantos que acumulei, minha nossa… Eles
me levaram ao submundo de Dante, do qual não consigo sair.
Só de pensar, sinto o bem que me
faria desfazer as malas em um lugar novo, bem distante. Distante dos mesmos
caminhos e das mesmas pessoas que compõem meu habitat de dor. Passar horas
olhando a Torre de Pisa, sentindo-me tão torta quanto ela, mas ao mesmo tempo
acolhida. Os espíritos dos artistas devem ser acolhedores, penso eu.
Iria também dedicar minha mente para
o estudo das cores, amores e martírios estampados nas muitas igrejas. Talvez os
santos e anjos me indiquem qual caminho seguir para me purificar, assim como os
ciprestes-italianos purificam o ar e a paisagem com sua postura altiva e sábia
(para mim, elas parecem anciãs que sabem qual é o nosso destino). Quero
acreditar que a rustiquez da arquitetura e da fauna locais faria meu foco se voltar
para as bases primitivas de mim, para que eu pudesse entender as raízes do que
sinto agora, de quem me tornei.
Meu corpo anseia por descobertas.
Meus pulmões, novos odores; meus olhos, novas íris; minha pele, novas brisas.
Meu paladar certamente ficaria encantado em passar almoços e jantares viajando
em linguines con tartufi bianchi e bisteccas alla fiorentina. A sede então,
nem se fala. Ela almeja Chiantis, Moltepulcianos e Carmignanos com toda a força de que meus rins são capazes. O novo
cardápio iria ser digerido juntamente das mágoas e reciclar minha capacidade de
sentir.
Sem dúvida, um vestido novo também
faria um milagre com minha autoestima. Mais ainda se for acompanhado de um novo
par de mãos que segurem as minhas, num passeio entre as minhas árvores sábias à
luz do sol-das-almas. E nesse cenário ter a certeza de que estou reconstruída,
que minha fé foi renovada e que posso mais uma vez me entregar a um novo beijo.
Rita Pavone - Detemi um Martello
Nenhum comentário:
Postar um comentário